Materialidades

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Materialidades

Nos estudos sobre os processos de criação no cinema, ao desviar o olhar da obra finalizada e da figura exclusiva do realizador-autor para mergulhar em outros modos de existir da obra, encontramos o conceito de “materialidades” como um modo de olhar atentamente para as dimensões materiais que sustentam e estão na origem de todo objeto fílmico.

As materialidades da criação englobam os diferentes elementos, mãos e escolhas que interagem na construção de um projeto fílmico. Elas afetam diretamente a criação a partir das relações experimentais que estabelecem entre o projeto e a sua tradição material, e contribuem para a documentação dos princípios orientadores de um processo enquanto registam as marcas das escolhas feitas pelos artistas, num percurso de constante tensão e integração entre ideias, procedimentos, técnicas e métodos. Como aponta a investigadora Cecilia Salles, para o contexto da criação, as materialidades passam a constituir arquivos e registos vivos dos processos de criação, revelando o caminho traçado entre os limites e as possibilidades da matéria, oscilando entre a tradição e a experimentação.

Para ilustrar este conceito, a investigação na área resgata a definição do cineasta Peter Kubelka, que vê a criação cinematográfica como um “trabalho de alfaiate em andamento”. Esta visão metafórica devolve o merecido protagonismo aos ofícios interartísticos, afastando a conceção tradicional que coloca o realizador como o único e exclusivo responsável pelo filme. A materialização da obra depende de uma multiplicidade de olhares e criadores envolvidos em diferentes espaços materiais, que vão desde a escolha do suporte e a escrita do argumento, até à direção de fotografia, a acústica, a iluminação, a direção de arte e o desenho de vestuário, entre outros. Dialogando também com o que o realizador António Reis denominou de “estética dos materiais”, o termo sublinha o rigor exigido na escolha dos elementos de composição e as consequências estéticas que essas opções trazem para a tela.

Pensar o cinema através das suas materialidades é, portanto, assumi-lo como um processo complexo, plural e inevitavelmente em rede. É reconhecer que o filme ganha forma no diálogo constante entre a matéria e a ação sobre ela, evidenciando os estilos, as formas e os cortes propostos pelos diversos sujeitos envolvidos em todas as camadas da imagem em movimento em interação com as matérias do criar. Assim, pensar as materialidades no âmbito da criação é pensar o próprio alimento desses processos: suas matérias de criação – às vezes um sentimento, volátil como o próprio processo, que ganha corpo em uma palavra, luz, textura ou fratura, atravessa a tela, encontra o outro e, na relação com a matéria, segue sua vocação de criar.